30 anos da morte de Padre Basso

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O Portal de Marcelino mergulhou fundo na história de um ilustre, sonhador e revolucionário padre que teve uma trajetória digna de aplausos em Marcelino Ramos.  Padre Fioravante Ricieri Basso, ou simplesmente, Padre Basso. Um grande líder que conviveu por muitos anos em nossa comunidade e que esteve ligado diretamente à causas e campanhas importantes. Nossa reportagem tem por objetivo manter viva a história para que as novas gerações tenham conhecimento de quem foi este grande homem. A pauta surgiu através de uma pesquisa biográfica do então acadêmico Ricardo Conceição num trabalho final de graduação no ano de 2007. Pela importância desta liderança para a comunidade, o Portal de Marcelino decidiu fazer um resgate histórico. Em 2017 está se completando 30 anos de sua morte.

 222Padre Fioravante Ricieri Basso nasceu em 1928 numa comunidade do interior do município de Caxias do Sul e desde criança, segundo pessoas que conviveram com ele, revelava interesse de ser padre. No ano de 1943 ele foi trazido para a Escola Apostólica  do Seminário Nossa Senhora da Salette. Na época Marcelino Ramos era a única alternativa na região para quem quisesse ser padre. Com foco forte na formação sacerdotal o Seminário era um local isolado do resto do mundo e a formação exigia um total comprometimento e abandono da vida comum. Padre Basso viveu intensamente a vida de seminarista e foi considerado um aluno exemplar. Em razão do seu desempenho ele ganhou a oportunidade de estudar em Roma numa universidade com ligação direta com o Vaticano. Em Roma, entre os anos de 1951 e 1956, ele mudou seu modo de vida em razão da troca de experiências com alunos de diferentes nacionalidades. Lá conheceu um mundo diferente. Em 1956 encerrou seus estudos e ordenou-se padre, retornando ao Brasil, especificamente Marcelino Ramos. Na década de 60 ocupou cargos importantes no Seminário, chegando assumir a presidência do Santuário. Foi ousado e pautou sua gestão em projetos audaciosos com aquisição de terras, construção de campos de futebol, piscinas, promovendo muitas reformas físicas e institucionais. Padre Basso defendia que os seminaristas auxiliassem trabalhando para o auto-sustento do seminário. Com o tempo ele percebeu que a formação sacerdotal era pouco a oferecer, pois precisavasse preparar os jovens também para o mercado de trabalho. Além de comprar ações em um frigorífico de Viadutos, preparou um projeto para implantar a “Granja Salette” com uma grande estrutura. Em 1973, durante uma assembleia provincial, padre Basso acabou sendo afastado da presidência do Seminário, pois os saletinos não concordavam com seus projetos e a única forma de barrar suas ideias era afastando-o. Padre Basso foi designado para assumir como pároco e os projetos foram abortados. Basso, de acordo com documentos da época, se mostrou decepcionado e muito indignado com a Congregação Saletina. Em carta, após o episódio, ele disse que se sentiu rejeitado “como um cachorro” pois dedicou anos de sua vida pelo seminário para acabar sendo afastado.

Pároco
Entre os anos de 1973 e 1979 ele atuou na paróquia onde teve a oportunidade de conhecer melhor a realidade do município. Teve uma ligação forte com os agricultores, sempre procurando incentivá-los. Chegou criar o 1º encontro regional de agricultores que foi um sucesso na época. Padre Basso também teve forte ligação com os pobres, defendendo a causa e sempre procurando prestar auxílio com alimentos e roupas.

Tentativa de compra do Hospital
Por muitos anos a comunidade de Marcelino Ramos dependia de hospitais particulares. Preocupado com este fato, Padre Basso iniciou uma campanha na comunidade, em conjunto com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, para comprar o hospital Dr. João da Silveira, na época avaliado em 1 milhão de cruzeiros. A campanha não arrecadou valor suficiente e o sonho não se concretizou.

Compra da Rádio
Em 1976 a Rádio Marcelinense, que pertencia a Assis Chalella, estava fechando as portas. A intenção do proprietário era vender ou levar ela para outro município. Sabendo da importância da mesma para a comunidade, Padre Basso iniciou uma campanha para arrecadar recursos , mas o valor arrecadado foi insuficiente. Frustrado, pediu ajuda a Congregação para que a paróquia comprasse. A ideia também não foi aceita.

Passaram-se dois anos, e em 1978, Padre Basso numa atitude audaciosa comunicava a todos que havia comprado a Rádio, pegando dinheiro emprestado de amigos e da rede bancária. Em seguida mudou o nome para Rádio Salette e mais uma vez mostrou-se magoado pelo fato da causa não ter sido abraçada. “Em definitivo acabo de assumir em definitivo a Rádio de Marcelino Ramos. O meu dever  é  esclarecer  que  este  imóvel  não  pertence  à  paróquia,  não  pertence  à Congregação, não pertence ao Seminário, é exclusivamente  iniciativa  minha. Todas as responsabilidades  caem  sobre  mim.  Além  disto,  os dois  sócios  que  assim  estão simplesmente para cumprirem a lei com uma mínima cota” disse ele em uma nota.

Mas a vida de empresário da comunicação e de padre não compartilhavam, pois havia voto sacerdotal de pobreza que não permitia possuir bens particulares. Entre a cruz e a espada em sua decisão, Basso decidiu abandonar a vida religiosa.

Fioravante Basso casou-se com Marta Kozam  que faleceu em 1985, com quem teve uma filha, e logo depois com Hedwig Ilse Schelle com quem dividiu o resto de sua vida. Ele morreu em setembro de 1987.

6 comentários em “30 anos da morte de Padre Basso

  • 2 de setembro de 2017 at 21:20

    Padre Basso sempre teve uma visão muito além do tempo em que vivia. Sempre inovador e preocupado com a comunidade em que estava inserido. Sempre esteve preocupado com o bem estar das pessoas que mais precisavam de ajuda. Muito lembro do atendimento prestados aos desabrigados das enchentes do Rio Uruguai , onde sempre estava presente , e a maior demonstração foi a criação da Casa do Menor que abriga crianças e jovens em dificuldades familiares. Nunca mediu esforços para transformar seu sonho em realidade no qual tive a satisfação de participar junto com outros marcelinenses.

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  • 16 de fevereiro de 2017 at 06:50

    Conheci o Padre Basso quando eu era coroinha na Igreja Matriz São João Batista, junto a muitas outras crianças e jovens da época. Ele vinha do Seminário para celebrar as missas no centro da cidade. Posteriormente trabalhei na Rádio Salette (então Rádio Marcelino Ramos), do final de 1968 até final de 1970, quando era propriedade do Sr. Azis Chalela. Também aí tive oportunidade de muitos contatos com o Padre Basso, principalmente por ocasião das transmissões da Romaria de Nossa Senhora da Salette, junto com o Padre Anacleto Ortigara.
    Padre Basso, dinâmico e empreendedor.

    Neri Biavatti
    Radialista
    Panambi – RS

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  • 15 de fevereiro de 2017 at 22:45

    Tive o privilégio de conhecer ele quando eu ainda era criança mas minha memória é muito boa e lembro até da voz dele. Grande amigo de meu pai e era difícil passar uma tarde de domingo sem a visita dele.
    Gostava de ouvir ele no rádio, transmitia muita sabedoria, imparcialidade e sabia comandar aquele que já foi o veículo de comunicação mais sério e mais confiável de nossa cidade. Imparcialidade e fraternidade, pensando no coletivo, no crescimento e na informação fiel. Muito afrente de sua época, inovador e criativo.
    Vi a casa do menor nascer nos comandos dele diretos ou indiretos, via-se crianças lá estudando, trabalhando algumas horas numa pequena lavoura onde hoje é parte do lago da usina, logo acima uma casa do idoso que não chegou ser concluída por conta de seu falecimento.
    Com certeza foi um grande investidor e inovador mas, seu pensamento no coletivo, provou que sua vontade era ver essa cidade crescer.

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  • 15 de fevereiro de 2017 at 18:45

    Foi uma pessoa diferenciada e durante a gestão do meu pai como prefeito, o Padre Basso teve papel importantíssimo, sempre apoiando a prefeitura nos projetos culturais e sociais como um todo. Uma pessoa exemplar.

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  • 15 de fevereiro de 2017 at 15:12

    Aos amigos Marcelinenses, convivi muitos anos com o padre Basso, conhecendo seu trabalho, com sempre com muito afinco em tudo, ajudando os necessitados. No Seminário construiu mini indústria de cerâmica, móveis entre outros trabalhos como a casa do menor e do idoso, nas comunidades do interior quando tinha um da família doente ele levava seminaristas para ajudar nas colheitas. Na enchente de 1965 era o primeiro a chegar e o último a sair, convocava voluntários pela rádio, seu pedido era uma ordem, liberou o salão paroquial e forneceu comida com ajuda de outros moradores. Ele tambem era agricultor, tinha uma colheitadeira de trigo para trabalhar no interior, foi por muitos anos do conselho fiscal da COTREL. Quando sua primeira esposa Marta faleceu, eu juntamente com Pali, Ilgo e outros levamos seu corpo até Francisco Beltrão para ser sepultado Lá e o pior foi quando ele ficou doente, eu levei para Erechin para ir para Porto Alegre fazer o tratamento, dessa vez não voltou mais com vida.
    Padre Basso, grande Homem.

    Anisio Machado Da Silva
    Formosa GO

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  • 15 de fevereiro de 2017 at 12:26

    O Padre Basso foi uma das pessoas revolucionária em Marcelino Ramos, a compra da rádio acompanhei bem, pois pertencia ao meu tio é minha mãe.
    Ele lutou muito para levantar fundos p/ a compra.
    Foi um grande empreendedor.

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